domingo, 19 de julho de 2009

Aroma noturno

Acordou de madrugada sentindo o leve aroma adocicado do cabelo dela em suas narinas.
Cada fio acariciando sua face era um convite ao pecado, e a essência da soma destes fios era o que precisava para recuperar seu sono e revigorar seu fôlego.
Lembrava da noite anterior, exaustiva e excitante...
Cada gesto, cada palavra, cada olhar, cada mordida, cada lambida...
Cada vez que sentia o toque dela em seu corpo, o coração acelerava.
Em cada gozo pensou que infartaria.
Em cada gota de suor tinha a certeza que repetiria essa tortura deliciosa sempre que ela quisesse.
Em cada segundo de silêncio, agora, ouvindo apenas sua respiração e sentindo o cheiro de seus cabelos, vislumbrava uma história a dois.
Não haviam garantias de que durariam juntos, mas ele sentiu uma vontade indescritível de fazer seu máximo para dar certo.
Sentiu sono de novo e, se ajeitando na cama, num movimento suave tocou sem querer as costas dela.
Ela se virou, felina, voltando o rosto para ele, ainda adormecida.
Era possível sentir o beijo da respiração um do outro, tão perto que seus rostos estavam.
Não resistiu à proximidade e tocou devagar os lábios dela com os seus.
Ao recuar a cabeça para seu travesseiro, percebeu um leve sorriso se formar no rosto dela.
Registrou esse momento num canto de sua memória onde permaneceria intacto para sempre.
Diante daquele sorriso leve e espontâneo, seus olhos se fecharam sem pressa até que ele, enfim, adormeceu novamente.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Eu quero te roubar pra mim

Eu quero te roubar pra mim
Sentir sua alegria pulsante de vida
Transformar meu deserto em jardim
E seu coração em minha rosa preferida

Quero cometer o crime mais puro
Sequestrar seu beijo, guardar num cofre forte
Ser teu navegante, seu porto seguro
Te guiar e ser guiado, ser teu sul e você meu norte

Eu quero te roubar pra mim
Ontem, hoje, amanhã, indefinidamente
Te incentivar, tornar a vida mais leve enfim
Te ver sorrir e sentir essa plenitude diariamente

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Conto - Incondicionalmente

Poucos dias após ficarmos noivos, Isabel me disse: "Haja o que houver, estou do seu lado. Incondicionalmente."
E esteve, dia e noite, sol e chuva, inverno e verão, do meu lado.
Quando perdi o emprego, estava lá me apoiando, incentivando, fazendo o possível para levantar minha auto-estima e me ajudar na procura por outro trabalho, que até demorei a conseguir.
Quando meu pai morreu, ela estava lá me confortando, secando minhas lágrimas e fornecendo o amor generoso que eu tanto precisava.
Quando precisei operar o pulmão, estava firme ao meu lado durante todo o tratamento, não só no hospital onde passou tantas noites velando meu sono, mas também após a operação, me recuperando em casa, ela sempre me deu sua companhia e paciência.
Até mesmo quando eu briguei com meu cunhado, irmão dela, que tentou me trapacear em um negócio, até nesse momento quando ela poderia simplesmente não tomar partido e eu entenderia, até assim ela esteve do meu lado.
Incondicionalmente.
Entende?
Ela está comigo, haja o que houver...
Mas aí veio essa doença maldita. E avançou muito rápido, quando percebemos já estava muito grave.
Se ela não operar logo, não terá salvação...
E agora que, pela primeira vez, ela precisa de mim, eu não posso ajudar.
Não sou compatível...
Você imagina o que sinto?
Entende meu desespero?
Olha, se você não é capaz de entender a minha gratidão por ela, coloque-se no meu lugar.
A pessoa que sempre esteve apoiando nos piores momentos da sua vida precisa da sua ajuda. E aí?
Tenho certeza que você faria o possível e, se necessário, o impossível pra conseguir retribuir, para mostrar que ela tem alguém com quem contar incondicionalmente.
Não é só uma questão de gratidão...
Você entende isso, não é?
Eu li sua ficha.
Você é compatível.
Na verdade, de todas as que li, você é a única pessoa compatível.
Mas não podem operar enquanto você ainda está vivo...
Eu sei que é egoísmo da minha parte, e você está em coma há poucos dias.
Mas, caramba, você não tem filhos. Não tem esposa. Não tem nada além de um cachorro.
Um maldito cachorro!
Isabel é tudo pra mim...
E não há outra solução, então desculpe. Mas pra salvar Isabel, eu sou capaz de qualquer coisa...
Não se preocupe, cuidarei do seu cachorro.
Durma bem.
...
..
.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Outra Vez

Outra vez, outra aproximação
outra chance ou outra decepção
Outros encontros, outros motivos
outros choros, outros sorrisos

Outros segredos
Outra realidade
Outros medos
Outra saudade

Outras ilusões, outras surpresas
outras promessas, outras certezas
Outros sonhos, outros desejos
Outros amigos ou outros brinquedos

Outras barreiras
Outro favor
Outras palavras
E o mesmo amor...

O mesmo amor outra vez?

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Bela

OBS: Quem preferir ouvir a narração deste micro-conto, basta acessar o link abaixo:
"clique com o botão direito e peça para abrir o link em uma nova janela"
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Noite calma.
Estrelas totalmente visíveis no céu.
Ela olha pela sacada, de costas pra mim, num longo preto e salto alto.
Sensual.
Cheirosa.
Decididamente deslumbrante.
Eu, trazendo as taças e a garrafa de vinho, torço pra ela não lembrar novamente da minha gafe de ter esquecido de comprar o presente de aniversário. Mas acho que ela já me perdoou, depois do jantar que tivemos.
Silêncio em meu apartamento.
Apenas a brisa que vem da sacada e mexe levemente o vestido dela.
Coloco um cd pra tocar. Algo especial; a noite é especial.
Ela percebe o som e, vindo em minha direção, caminha suavemente com um sorriso enigmático no rosto.
Ofereço um pouco de vinho. Ela prefere dançar.
Fico paralisado por eternos segundos, hipnotizado pela sensualidade e graça que ela exala, enquanto dança de olhos fechados.
Ela, finalmente, aqui.
Bela.
Minha.
Me aproximo e colo meu corpo no dela, acompanhando o ritmo que Chet Baker dita para nossa dança.
Ela me abraça e comenta que meu perfume é delicioso.
Sorrio.
Nestes instantes, a vida é perfeita.
E, apesar do que diz o relógio, a noite está apenas começando...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Noites de Verão

A insônia me assola nestas noites de verão
Mas não por causa do calor desta estação
E sim pois falta teu corpo cheiroso me envolvendo
Abraçando com sua pele como se estivesse dizendo:

Fique tranquilo esta noite, bebê.

Dormir assim, te tocando, é sublime
Mais que me acalmar, isto me redime
Me faz esquecer as tristezas e os lamentos
Que assolam minha mente a todo momento

É um bálsamo que envolve o meu ser.

Enquanto não te vejo outra vez
Maltrato estes versos com rimas clichês
Encontrando palavras perdidas no ar
Tentando construir uma forma para falar

Que é maravilhoso estar com você.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Ecos no Paraíso

Uma tarde Eva passeava pelo Paraíso e encontrou uma serpente.
A serpente, simpática e sedutora, rapidamente impressionou Eva.
Um ser tão inteligente, com uma conversa tão interessante, humorada, sensual, naquele lugar tão lindo mas monótono e cheio de animais que só queriam saber de pastar e dormir...
Em pouco tempo Eva estava encantada.
E diariamente conversava com a serpente. Quando Adão lhe perguntava onde ia naquelas tardes ela sempre arranjava desculpas. "Visitar o casal de zebras" "Vou até o riacho", "Fui colher jaboticabas" , "Ajudei os macacos a se coçar".
Eva mentia não por medo de Adão a proibir, mas simplesmente porque tinha certeza que ele não entenderia que as tardes de conversa com a serpente eram algo único e que ela não queria compartilhar com mais ninguém. Eva sentia que aqueles momentos eram especiais. Sentia certo orgulho em saber que apenas ela tinha acesso aquele ser fascinante.
Até que, num dia, Eva decidiu fazer uma surpresa e visitou a serpente pela manhã e ficou chocada ao vê-la conversando animadamente com Adão.
Nunca parou pra se preocupar com o que Adão fazia naquele horário, pela manhã, todos os dias... e descobriu que ela não era a única a conhecer a serpente.
Sentiu tristeza pois não era algo só dela, a atenção do animal. Enciumada, voltou para a parte no Jardim onde morava com Adão.
Durante alguns dias não visitou a serpente e também mal conversava com Adão. Este também não fazia esforço para entender o que estava acontecendo.
Mas o fascínio pela serpente foi mais forte que a mágoa, e Eva acabou visitando o animal em uma tarde, quase duas semanas depois.
Assim que sentou-se próxima do arbusto onde a serpente dormia, perguntou se esta queria lhe dizer algo.
A serpente, em seu tom sedutor e sereno, disse simplesmente que não havia nada a ser dito pois Eva já sabia que ela conversava com outra pessoa.
Ao perceber a surpresa de Eva, a serpente falou que a havia visto naquela manhã conversando com Adão. E que não havia entendido a ausência dela, desde então.
Eva argmentou que achava ser a única a ter aqueles momentos especiais, e por isso ficou desapontada.
A serpente, então, falou que nunca pensou de forma diferente em relação à ela e que imaginava ser o único ser naquele Paraíso que desfrutava da companhia e da conversa fascinante de Eva. Mas descobrira que havia outra pessoa.

Foi assim que Eva descobriu que a vida é um eco.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Não fuja

Você evita me conhecer
Não faça isso comigo
Há tanto pra ser vivido
E tão pouco tempo para viver

Entre nós pode haver só amizade
Ou algo mais belo nos espera
Mas, seja no asfalto ou na favela
Existe beleza em todos os cantos da cidade

Moça, não fuja de mim
Não faça isso com nós dois
Não deixe que a vontade fique pra depois
Pois pode simplesmente chegar ao fim

Vem, experimenta a beleza da vida
Me abraça, me esquenta, me devora
Faça o que quiser, mas faça agora
Viva este momento, moça bonita

sábado, 17 de janeiro de 2009

Corpos na chuva

Repentinamente, choveu.
As gotas colando as roupas em seus corpos, naquela tarde, também purificava suas almas e realçava suas sensibilidades.
Sentiam tudo ao redor. Os carros passando nas ruas, as pessoas apressadas para fugir da chuva, os prédios comerciais imponentes e frios, a brisa típica da chuva. Sentiam, simplesmente.
Seus olhares fixos, surpresos, questionando se aquele instante era real ou sonho.
Aquele tempo todo longe, sem notícias. Parecia uma eternidade.
E agora, estavam a poucos metros de distância.
Assustadoramente próximos.
Permaneceram naquele estado de choque por alguns minutos, se reconhecendo, examinando minuciosamente se aquela pessoa logo ali, era de fato quem parecia ser.
Ele deu o primeiro passo. Sempre fora o mais impulsivo.
Ela só se moveu depois que ele percorrera metade do caminho. Parecia não acreditar ainda.
Quando estavam a poucos centímetros de distância, pararam.
Seus olhares quase se tocavam.
Resistiam aos instintos do tato, controlavam suas vontades mutuamente, apenas para preservar aquele momento.
As gotas de chuva em seus rostos simulavam lágrimas que saiam não só dos olhos, mas pelos poros.
Seus corpos choravam, mas estavam felizes.
Suas respirações aceleravam, à medida que a emoção os consumia.
Lembraram de tudo o que havia acontecido, e repentinamente sabiam que ambos se perdoavam.
A chuva expiava seus erros, lavava seus pecados, limpava seus corações.
Ofegantes, se abraçaram.
Ela, a mais fria, enfim chorou. Ele, passional, estava sereno, reverenciando o pranto raro que a mulher vertia.
E ficaram assim, por um tempo que não precisa ser medido.
Apenas vivido.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Carpe Diem

De tempos em tempos nos falta algo
Não sabemos descrever o que seja
Vem e chega como num sobresalto
Não se explica, só se deseja

E o desejo, como se sabe, não se controla
Por mais que muita gente ainda tente
O segredo é guardar no coldre a pistola
E não tentar nadar contra a corrente

Pois a única forma de superar um impulso
É cedendo
E a única forma de ter um destino justo
É vivendo

Quasis - ou Nada Melhor Para Fazer

Quase tudo, quase nada
Quase sonho, quase fim
Quase força, quase estrada
Quase água, quase gim

Quase estranho, quase medo
Quase céu, quase amarelo
Quase negro, quase enredo
Quase bobo, quase belo

Quase o mundo, quase nosso
Quase de cada, quase dia
Quase vira, quase seu rosto
Quase para, quase nós

Quase ferro, fogo, gelo, metal
Quase um minério singelo
Quase a transformação final
Quase um diamante belo

Quase sol, quase o amanhã
Quase o calor, quase uma estrela
Quases
Qualis

Qualidades

Casualidades
Casuais idades
Casuais vidas nas cidades
Quase as vidas nas cidades

Quase há vidas bem vividas

domingo, 11 de janeiro de 2009

Conto Inacabado - 2ª parte

Após a festa, a realidade.
Seguiram cada um para sua casa, perdidos em pensamentos confusos sobre aquela noite.
Quando um homem e uma mulher se encontram e se descobrem pela primeira vez, imediatamente passam na cabeça dos dois as possibilidades que aquele contato pode proporcionar e, por vezes, essas possibilidades – boas ou ruins – assustam.
E assim aconteceu.
Diante do susto, o que poderia fazer?
Telefonar na manhã seguinte, ou esperar um movimento inicial do outro lado?
Sentia-se inútil, sem ação.
E as várias perguntas em sua cabeça só aumentavam essa sensação de inutilidade.
E o noivado? E as vidas envolvidas?
Não poderia imaginar o que a outra pessoa estaria esperando como conseqüência da noite anterior, e nem mesmo conseguiria dizer o que esperava que fosse acontecer agora.
Não sentia arrependimento. Pelo contrário, estava feliz por terem se encontrado.
Mas diante daquela magia que descobrira, daquela força intensa, sentia uma dose de preocupação por não perceber em si o preparo necessário para deixar fluir.
Na verdade não conseguia detectar ainda se era simplesmente falta de preparo, ou de vontade.
Já passara por algo parecido antes, em outra ocasião, com outra pessoa.
Não percebera a magia na primeira vez, mas reconheceu o calor que tomou seu corpo.
E se, da primeira vez, curtiu alguns encontros mas não sentiu vontade de prosseguir, agora não sabia responder o que fazer, se alguém lhe perguntasse.
Talvez dissesse apenas que era uma ótima companhia que tinha encontrado naquela festa. Uma companhia especial por quem tinha criado um respeito imediato.
Mas o que será que a outra pessoa diria, se lhe fosse feita a mesma pergunta?
A incerteza de saber esta resposta lhe incomodava. Mas, em algum lugar dentro de seu peito, também lhe causava uma sensação gostosa de que, talvez, a outra pessoa respondesse que, mais do que uma ótima companhia, havia conhecido alguém por quem valesse a pena repensar vários assuntos de sua vida.
Acabou adormecendo, sorrindo.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Na estrada

Só um instante, amor
Uma vida em segundos
Uma viagem entre os mundos
O destino de um sonhador

Veja o rumo que tomamos
Nossos caminhos distantes
Percorrido em passos gigantes
Separados por muitos enganos

Olha adiante, meu bem
Contempla o abismo logo aí
A poucos passos de ti
Não caia e não empurre ninguém

Se quiser, dê a volta comigo
Seguiremos lado a lado
Te conduzo com todo o cuidado
E ensino a evitar o perigo

Basta andar de mãos dadas
Passar por aquela ponte
Cruzar por cima do monte
E voltaremos juntos para a estrada

Só um instante, amor
Uma vida quase perdida
Uma viagem interrompida
Pedaços de uma história sem narrador

Natureza Solitária

Serei sincero: sou um solitário por natureza.
E gosto disso.
O fato de estar sozinho tem seus benefícios.
Gosto de saber que, entre minhas idas e vindas, fica a incerteza de que eu mesmo serei o responsável por minhas escolhas e as conseqüências destas. Não firo ninguém, não machuco ninguém, não desaponto ninguém.
Durante algum evento ou comemoração em família ou amigos, se me sinto entediado posso simplesmente me levantar, me despedir – ou não – e ir embora. Sem me preocupar se a pessoa que estivesse comigo sentia ainda vontade de ficar e ouvir mais conversas que, para mim poderiam soar chatas e sonolentas, mas para outros poderiam ser interessantes.
Não dá para prever o quão interessante alguém pode achar determinada situação ou assunto. Dá para tentar imaginar, mas prever com exatidão, não.
E é essa imprevisibilidade que me deixa desconfortável.
Quando estou sozinho, sei o que quero. Como quero.
Não existe a imprevisibilidade, pois eu me conheço.
Ser um solitário por natureza traz esse benefício também: o autoconhecimento.
Existe a vantagem também de que, por ser parte de minha essência essa solidão, é muito mais fácil para que eu saia dela, a qualquer momento que eu considere adequado.
Mas não se engane, a solidão não é algo simples de lidar.
É preciso uma certa dose de frieza, desapego. E objetividade.
Sou solitário porque sei o que quero. E quando não vislumbro alternativas para conseguir o que quero, prefiro a familiaridade da solidão do que uma companhia momentânea.
E essa objetividade, simples assim, é um peso que muitas pessoas não conseguem se acostumar.
São as pessoas que sentem a necessidade incontrolável de se sentirem desejadas. Que evitam o território desconhecido da solidão, por medo de não conseguirem mais voltar dessa sombra.
Não entendem que, assim como nem toda luz leva a um paraíso, nem toda sombra é moradia de pesadelos.
Quando entenderem isso, entenderão também que não é preciso temer os momentos de solidão. Que, a partir desse entendimento, fica claro o rumo para sair da sombra, a hora que quiser. Fica nítida a certeza de que esse é um dos caminhos inevitáveis por onde andamos às vezes e, por mais cinza e feio que possa parecer, só trilhando é que se consegue ver a beleza e os tons ao redor.
Pensando bem, se todos entenderem isso, o mundo ficará mais triste, vazio.
Toda parte precisa de sua contraparte.
E o meu conforto em ser um solitário por natureza só existe porque alguém, talvez até você, se sinta confortável em ser uma pessoa que prefere muitas companhias do que estar só.
É como se fôssemos parte de um grande quebra cabeças cujas peças possuem apenas dois tipos de encaixe em suas extremidades.
Esse encaixe nas peças que vivem neste planetinha azul chamado Terra é poesia bruta.
E, no final das contas, percebemos que Deus (ou seja lá o nome que sua crença dá ao Criador) é um grande poeta, que faz de nós suas rimas durante as famosas escritas certas sobre linhas tortas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Conto inacabado - 1ª parte

A festa estava cheia, música nos últimos volumes, vozes gritando numa tentativa de conversar.
Mas dentro de sua cabeça, pelo salão só havia o som suave de uma sinfonia perdida que era executada por anjos.
Nada era capaz de tirar sua atenção daquele brilho intenso que emanava da pessoa a seu lado.
Tudo era inverso. A energia, palpável. Os toques, etéreos. O tempo, descompassado. A vida cotidiana, distante.
A sensação inegável de prazer enquanto se conheciam parecia mágica.
Mas não acreditava em mágica.
Então o que era?
Não sabia, mas se permitia sentir para, talvez, conseguir descobrir.
E enquanto permitia, se perdia. Se perdia dos pensamentos, das dúvidas, das incertezas, das mentiras, das decepções.
Se perdia dos medos. Das tristezas.
Se sentia bem... sufocantemente bem... angustiantemente bem.
Por alguns segundos, com o olhar perdido em algo que só sua mente sabia, parecia prestes a gritar. Sentia um calor singular pelo corpo, algo que nascia em seu peito e se espalhava rapidamente, irradiando aquela sensação, e canalizava tudo em direção aos seus olhos e parecia prestes a irromper em lágrimas furtivas.
Queria chorar. Queria sorrir. Queria gritar. Queria cantar. Queria expressar tudo aquilo das formas mais primitivas e básicas. Das formas mais naturais e honestas.
Diante daquele turbilhão que acontecia dentro de si, preferiu procurar a outra boca e agradecer com um beijo fulminante e delicado.
E por fim descobriu que havia mágica no mundo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Corpo e Alma

Toma meu corpo, é teu.
Mas não minha alma.
Deixa ela comigo ainda, preciso sentir o que é para ser sentido, viver o que é para ser vivido e amar, o que deve ser amado.
Deixa ela solta, preparada para conhecer o mundo inteiro. Outros mundos. O Universo. A próxima.
Deixa que minha alma reconheça outras almas livres, outras almas presas, outras almas perdidas, outras almas solitárias, outras almas felizes, outras almas carentes. Deixa ela ser amistosa, carinhosa, protetora, cuidadosa. Deixa ela ser assustadora.
Deixa minha alma viajar por aí, solta, livre, saqueando amores alheios para depois retomar seu caminho.
Não precisa temer.
Ela brinca, se esconde, vai, mas sempre volta ao lugar de origem.
Meu corpo. Que é teu.
Sempre teu.

Toma minha alma, é tua.
Mas não meu corpo.
Deixa ele comigo ainda, preciso sentir o que é para ser sentido, viver o que é para ser vivido e amar, o que deve ser amado.
Deixa meu corpo se exercitar por aí, com outros corpos, ser conduzido por outras mãos, outras bocas, outras línguas, outros cabelos, outros aromas. Deixa ele ser o condutor.
Deixa que ele fique por cima ou por baixo, ou de lado ou do outro, deixa ele explorar os espaços entre as pessoas, os objetos, os vazios. Deixa ele fazer os movimentos precisos ou errôneos, deixa ele brincar, se reconhecer, deixa meu corpo pintar e bordar.
Deixa meu corpo arfar, sorrir, chorar, gemer, tremer, respirar, correr, pular, suar, lamber, pisar, morder, pegar, bater, parar. Ele nasceu para isso.
Não precisa temer.
Ele finge reconhecer você em outros corpos, vai, mas volta sempre ao lugar de origem.
Minha alma. Que é tua.
Sempre tua.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Sobre a Inveja

Eu invejo o que não tenho.
Mas nem tudo, só o que considero especial.
Único.
Ímpar.
Invejo o talento de escritores como Rubem Fonseca ou Gabriel Garcia Marquez.
Invejo a visão de diretores como Martin Scorsese ou Stanley Kubrick.
Invejo a criatividade de roteiristas como Charlie Kaufmann ou Quentin Tarantino.
Invejo a sensibilidade de atores como Robert de Niro ou Marlon Brando.
Invejo a emoção de cantoras como Elis Regina ou Ella Fitzgerald.
Invejo o bom humor de comediantes como Chico Anysio ou os ingleses do Monthy Pyton.
Invejo a beleza de galãs como Gianechinni ou Brad Pitt.
Invejo a habilidade de empresários como Silvio Santos ou Steve Jobs.
Invejo a sabedoria de mentes iluminadas como Ghandi ou Madre Teresa.
Invejo a poesia de privilegiados como Carlos Drummond de Andrade ou Pablo Neruda.
Invejo a malandragem de Chaplin ou Zeca Pagodinho.
Invejo a musicalidade de Mozart ou Tom Jobim.
Sempre as habilidades, não as pessoas.
Ou ao menos era assim.
Hoje em dia, no entanto, sinto inveja de uma pessoa.
A que tem para si o coração daquela que é a razão do meu afeto.
Como diria a canção: se ela tivesse asas, voaria.
Quem sabe, um dia.