Uma tarde Eva passeava pelo Paraíso e encontrou uma serpente.
A serpente, simpática e sedutora, rapidamente impressionou Eva.
Um ser tão inteligente, com uma conversa tão interessante, humorada, sensual, naquele lugar tão lindo mas monótono e cheio de animais que só queriam saber de pastar e dormir...
Em pouco tempo Eva estava encantada.
E diariamente conversava com a serpente. Quando Adão lhe perguntava onde ia naquelas tardes ela sempre arranjava desculpas. "Visitar o casal de zebras" "Vou até o riacho", "Fui colher jaboticabas" , "Ajudei os macacos a se coçar".
Eva mentia não por medo de Adão a proibir, mas simplesmente porque tinha certeza que ele não entenderia que as tardes de conversa com a serpente eram algo único e que ela não queria compartilhar com mais ninguém. Eva sentia que aqueles momentos eram especiais. Sentia certo orgulho em saber que apenas ela tinha acesso aquele ser fascinante.
Até que, num dia, Eva decidiu fazer uma surpresa e visitou a serpente pela manhã e ficou chocada ao vê-la conversando animadamente com Adão.
Nunca parou pra se preocupar com o que Adão fazia naquele horário, pela manhã, todos os dias... e descobriu que ela não era a única a conhecer a serpente.
Sentiu tristeza pois não era algo só dela, a atenção do animal. Enciumada, voltou para a parte no Jardim onde morava com Adão.
Durante alguns dias não visitou a serpente e também mal conversava com Adão. Este também não fazia esforço para entender o que estava acontecendo.
Mas o fascínio pela serpente foi mais forte que a mágoa, e Eva acabou visitando o animal em uma tarde, quase duas semanas depois.
Assim que sentou-se próxima do arbusto onde a serpente dormia, perguntou se esta queria lhe dizer algo.
A serpente, em seu tom sedutor e sereno, disse simplesmente que não havia nada a ser dito pois Eva já sabia que ela conversava com outra pessoa.
Ao perceber a surpresa de Eva, a serpente falou que a havia visto naquela manhã conversando com Adão. E que não havia entendido a ausência dela, desde então.
Eva argmentou que achava ser a única a ter aqueles momentos especiais, e por isso ficou desapontada.
A serpente, então, falou que nunca pensou de forma diferente em relação à ela e que imaginava ser o único ser naquele Paraíso que desfrutava da companhia e da conversa fascinante de Eva. Mas descobrira que havia outra pessoa.
Foi assim que Eva descobriu que a vida é um eco.
sábado, 31 de janeiro de 2009
domingo, 18 de janeiro de 2009
Não fuja
Você evita me conhecer
Não faça isso comigo
Há tanto pra ser vivido
E tão pouco tempo para viver
Entre nós pode haver só amizade
Ou algo mais belo nos espera
Mas, seja no asfalto ou na favela
Existe beleza em todos os cantos da cidade
Moça, não fuja de mim
Não faça isso com nós dois
Não deixe que a vontade fique pra depois
Pois pode simplesmente chegar ao fim
Vem, experimenta a beleza da vida
Me abraça, me esquenta, me devora
Faça o que quiser, mas faça agora
Viva este momento, moça bonita
Não faça isso comigo
Há tanto pra ser vivido
E tão pouco tempo para viver
Entre nós pode haver só amizade
Ou algo mais belo nos espera
Mas, seja no asfalto ou na favela
Existe beleza em todos os cantos da cidade
Moça, não fuja de mim
Não faça isso com nós dois
Não deixe que a vontade fique pra depois
Pois pode simplesmente chegar ao fim
Vem, experimenta a beleza da vida
Me abraça, me esquenta, me devora
Faça o que quiser, mas faça agora
Viva este momento, moça bonita
sábado, 17 de janeiro de 2009
Corpos na chuva
Repentinamente, choveu.
As gotas colando as roupas em seus corpos, naquela tarde, também purificava suas almas e realçava suas sensibilidades.
Sentiam tudo ao redor. Os carros passando nas ruas, as pessoas apressadas para fugir da chuva, os prédios comerciais imponentes e frios, a brisa típica da chuva. Sentiam, simplesmente.
Seus olhares fixos, surpresos, questionando se aquele instante era real ou sonho.
Aquele tempo todo longe, sem notícias. Parecia uma eternidade.
E agora, estavam a poucos metros de distância.
Assustadoramente próximos.
Permaneceram naquele estado de choque por alguns minutos, se reconhecendo, examinando minuciosamente se aquela pessoa logo ali, era de fato quem parecia ser.
Ele deu o primeiro passo. Sempre fora o mais impulsivo.
Ela só se moveu depois que ele percorrera metade do caminho. Parecia não acreditar ainda.
Quando estavam a poucos centímetros de distância, pararam.
Seus olhares quase se tocavam.
Resistiam aos instintos do tato, controlavam suas vontades mutuamente, apenas para preservar aquele momento.
As gotas de chuva em seus rostos simulavam lágrimas que saiam não só dos olhos, mas pelos poros.
Seus corpos choravam, mas estavam felizes.
Suas respirações aceleravam, à medida que a emoção os consumia.
Lembraram de tudo o que havia acontecido, e repentinamente sabiam que ambos se perdoavam.
A chuva expiava seus erros, lavava seus pecados, limpava seus corações.
Ofegantes, se abraçaram.
Ela, a mais fria, enfim chorou. Ele, passional, estava sereno, reverenciando o pranto raro que a mulher vertia.
E ficaram assim, por um tempo que não precisa ser medido.
Apenas vivido.
As gotas colando as roupas em seus corpos, naquela tarde, também purificava suas almas e realçava suas sensibilidades.
Sentiam tudo ao redor. Os carros passando nas ruas, as pessoas apressadas para fugir da chuva, os prédios comerciais imponentes e frios, a brisa típica da chuva. Sentiam, simplesmente.
Seus olhares fixos, surpresos, questionando se aquele instante era real ou sonho.
Aquele tempo todo longe, sem notícias. Parecia uma eternidade.
E agora, estavam a poucos metros de distância.
Assustadoramente próximos.
Permaneceram naquele estado de choque por alguns minutos, se reconhecendo, examinando minuciosamente se aquela pessoa logo ali, era de fato quem parecia ser.
Ele deu o primeiro passo. Sempre fora o mais impulsivo.
Ela só se moveu depois que ele percorrera metade do caminho. Parecia não acreditar ainda.
Quando estavam a poucos centímetros de distância, pararam.
Seus olhares quase se tocavam.
Resistiam aos instintos do tato, controlavam suas vontades mutuamente, apenas para preservar aquele momento.
As gotas de chuva em seus rostos simulavam lágrimas que saiam não só dos olhos, mas pelos poros.
Seus corpos choravam, mas estavam felizes.
Suas respirações aceleravam, à medida que a emoção os consumia.
Lembraram de tudo o que havia acontecido, e repentinamente sabiam que ambos se perdoavam.
A chuva expiava seus erros, lavava seus pecados, limpava seus corações.
Ofegantes, se abraçaram.
Ela, a mais fria, enfim chorou. Ele, passional, estava sereno, reverenciando o pranto raro que a mulher vertia.
E ficaram assim, por um tempo que não precisa ser medido.
Apenas vivido.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Carpe Diem
De tempos em tempos nos falta algo
Não sabemos descrever o que seja
Vem e chega como num sobresalto
Não se explica, só se deseja
E o desejo, como se sabe, não se controla
Por mais que muita gente ainda tente
O segredo é guardar no coldre a pistola
E não tentar nadar contra a corrente
Pois a única forma de superar um impulso
É cedendo
E a única forma de ter um destino justo
É vivendo
Não sabemos descrever o que seja
Vem e chega como num sobresalto
Não se explica, só se deseja
E o desejo, como se sabe, não se controla
Por mais que muita gente ainda tente
O segredo é guardar no coldre a pistola
E não tentar nadar contra a corrente
Pois a única forma de superar um impulso
É cedendo
E a única forma de ter um destino justo
É vivendo
Quasis - ou Nada Melhor Para Fazer
Quase tudo, quase nada
Quase sonho, quase fim
Quase força, quase estrada
Quase água, quase gim
Quase estranho, quase medo
Quase céu, quase amarelo
Quase negro, quase enredo
Quase bobo, quase belo
Quase o mundo, quase nosso
Quase de cada, quase dia
Quase vira, quase seu rosto
Quase para, quase nós
Quase ferro, fogo, gelo, metal
Quase um minério singelo
Quase a transformação final
Quase um diamante belo
Quase sol, quase o amanhã
Quase o calor, quase uma estrela
Quases
Qualis
Qualidades
Casualidades
Casuais idades
Casuais vidas nas cidades
Quase as vidas nas cidades
Quase há vidas bem vividas
Quase sonho, quase fim
Quase força, quase estrada
Quase água, quase gim
Quase estranho, quase medo
Quase céu, quase amarelo
Quase negro, quase enredo
Quase bobo, quase belo
Quase o mundo, quase nosso
Quase de cada, quase dia
Quase vira, quase seu rosto
Quase para, quase nós
Quase ferro, fogo, gelo, metal
Quase um minério singelo
Quase a transformação final
Quase um diamante belo
Quase sol, quase o amanhã
Quase o calor, quase uma estrela
Quases
Qualis
Qualidades
Casualidades
Casuais idades
Casuais vidas nas cidades
Quase as vidas nas cidades
Quase há vidas bem vividas
domingo, 11 de janeiro de 2009
Conto Inacabado - 2ª parte
Após a festa, a realidade.
Seguiram cada um para sua casa, perdidos em pensamentos confusos sobre aquela noite.
Quando um homem e uma mulher se encontram e se descobrem pela primeira vez, imediatamente passam na cabeça dos dois as possibilidades que aquele contato pode proporcionar e, por vezes, essas possibilidades – boas ou ruins – assustam.
E assim aconteceu.
Diante do susto, o que poderia fazer?
Telefonar na manhã seguinte, ou esperar um movimento inicial do outro lado?
Sentia-se inútil, sem ação.
E as várias perguntas em sua cabeça só aumentavam essa sensação de inutilidade.
E o noivado? E as vidas envolvidas?
Não poderia imaginar o que a outra pessoa estaria esperando como conseqüência da noite anterior, e nem mesmo conseguiria dizer o que esperava que fosse acontecer agora.
Não sentia arrependimento. Pelo contrário, estava feliz por terem se encontrado.
Mas diante daquela magia que descobrira, daquela força intensa, sentia uma dose de preocupação por não perceber em si o preparo necessário para deixar fluir.
Na verdade não conseguia detectar ainda se era simplesmente falta de preparo, ou de vontade.
Já passara por algo parecido antes, em outra ocasião, com outra pessoa.
Não percebera a magia na primeira vez, mas reconheceu o calor que tomou seu corpo.
E se, da primeira vez, curtiu alguns encontros mas não sentiu vontade de prosseguir, agora não sabia responder o que fazer, se alguém lhe perguntasse.
Talvez dissesse apenas que era uma ótima companhia que tinha encontrado naquela festa. Uma companhia especial por quem tinha criado um respeito imediato.
Mas o que será que a outra pessoa diria, se lhe fosse feita a mesma pergunta?
A incerteza de saber esta resposta lhe incomodava. Mas, em algum lugar dentro de seu peito, também lhe causava uma sensação gostosa de que, talvez, a outra pessoa respondesse que, mais do que uma ótima companhia, havia conhecido alguém por quem valesse a pena repensar vários assuntos de sua vida.
Acabou adormecendo, sorrindo.
Seguiram cada um para sua casa, perdidos em pensamentos confusos sobre aquela noite.
Quando um homem e uma mulher se encontram e se descobrem pela primeira vez, imediatamente passam na cabeça dos dois as possibilidades que aquele contato pode proporcionar e, por vezes, essas possibilidades – boas ou ruins – assustam.
E assim aconteceu.
Diante do susto, o que poderia fazer?
Telefonar na manhã seguinte, ou esperar um movimento inicial do outro lado?
Sentia-se inútil, sem ação.
E as várias perguntas em sua cabeça só aumentavam essa sensação de inutilidade.
E o noivado? E as vidas envolvidas?
Não poderia imaginar o que a outra pessoa estaria esperando como conseqüência da noite anterior, e nem mesmo conseguiria dizer o que esperava que fosse acontecer agora.
Não sentia arrependimento. Pelo contrário, estava feliz por terem se encontrado.
Mas diante daquela magia que descobrira, daquela força intensa, sentia uma dose de preocupação por não perceber em si o preparo necessário para deixar fluir.
Na verdade não conseguia detectar ainda se era simplesmente falta de preparo, ou de vontade.
Já passara por algo parecido antes, em outra ocasião, com outra pessoa.
Não percebera a magia na primeira vez, mas reconheceu o calor que tomou seu corpo.
E se, da primeira vez, curtiu alguns encontros mas não sentiu vontade de prosseguir, agora não sabia responder o que fazer, se alguém lhe perguntasse.
Talvez dissesse apenas que era uma ótima companhia que tinha encontrado naquela festa. Uma companhia especial por quem tinha criado um respeito imediato.
Mas o que será que a outra pessoa diria, se lhe fosse feita a mesma pergunta?
A incerteza de saber esta resposta lhe incomodava. Mas, em algum lugar dentro de seu peito, também lhe causava uma sensação gostosa de que, talvez, a outra pessoa respondesse que, mais do que uma ótima companhia, havia conhecido alguém por quem valesse a pena repensar vários assuntos de sua vida.
Acabou adormecendo, sorrindo.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Na estrada
Só um instante, amor
Uma vida em segundos
Uma viagem entre os mundos
O destino de um sonhador
Veja o rumo que tomamos
Nossos caminhos distantes
Percorrido em passos gigantes
Separados por muitos enganos
Olha adiante, meu bem
Contempla o abismo logo aí
A poucos passos de ti
Não caia e não empurre ninguém
Se quiser, dê a volta comigo
Seguiremos lado a lado
Te conduzo com todo o cuidado
E ensino a evitar o perigo
Basta andar de mãos dadas
Passar por aquela ponte
Cruzar por cima do monte
E voltaremos juntos para a estrada
Só um instante, amor
Uma vida quase perdida
Uma viagem interrompida
Pedaços de uma história sem narrador
Uma vida em segundos
Uma viagem entre os mundos
O destino de um sonhador
Veja o rumo que tomamos
Nossos caminhos distantes
Percorrido em passos gigantes
Separados por muitos enganos
Olha adiante, meu bem
Contempla o abismo logo aí
A poucos passos de ti
Não caia e não empurre ninguém
Se quiser, dê a volta comigo
Seguiremos lado a lado
Te conduzo com todo o cuidado
E ensino a evitar o perigo
Basta andar de mãos dadas
Passar por aquela ponte
Cruzar por cima do monte
E voltaremos juntos para a estrada
Só um instante, amor
Uma vida quase perdida
Uma viagem interrompida
Pedaços de uma história sem narrador
Natureza Solitária
Serei sincero: sou um solitário por natureza.
E gosto disso.
O fato de estar sozinho tem seus benefícios.
Gosto de saber que, entre minhas idas e vindas, fica a incerteza de que eu mesmo serei o responsável por minhas escolhas e as conseqüências destas. Não firo ninguém, não machuco ninguém, não desaponto ninguém.
Durante algum evento ou comemoração em família ou amigos, se me sinto entediado posso simplesmente me levantar, me despedir – ou não – e ir embora. Sem me preocupar se a pessoa que estivesse comigo sentia ainda vontade de ficar e ouvir mais conversas que, para mim poderiam soar chatas e sonolentas, mas para outros poderiam ser interessantes.
Não dá para prever o quão interessante alguém pode achar determinada situação ou assunto. Dá para tentar imaginar, mas prever com exatidão, não.
E é essa imprevisibilidade que me deixa desconfortável.
Quando estou sozinho, sei o que quero. Como quero.
Não existe a imprevisibilidade, pois eu me conheço.
Ser um solitário por natureza traz esse benefício também: o autoconhecimento.
Existe a vantagem também de que, por ser parte de minha essência essa solidão, é muito mais fácil para que eu saia dela, a qualquer momento que eu considere adequado.
Mas não se engane, a solidão não é algo simples de lidar.
É preciso uma certa dose de frieza, desapego. E objetividade.
Sou solitário porque sei o que quero. E quando não vislumbro alternativas para conseguir o que quero, prefiro a familiaridade da solidão do que uma companhia momentânea.
E essa objetividade, simples assim, é um peso que muitas pessoas não conseguem se acostumar.
São as pessoas que sentem a necessidade incontrolável de se sentirem desejadas. Que evitam o território desconhecido da solidão, por medo de não conseguirem mais voltar dessa sombra.
Não entendem que, assim como nem toda luz leva a um paraíso, nem toda sombra é moradia de pesadelos.
Quando entenderem isso, entenderão também que não é preciso temer os momentos de solidão. Que, a partir desse entendimento, fica claro o rumo para sair da sombra, a hora que quiser. Fica nítida a certeza de que esse é um dos caminhos inevitáveis por onde andamos às vezes e, por mais cinza e feio que possa parecer, só trilhando é que se consegue ver a beleza e os tons ao redor.
Pensando bem, se todos entenderem isso, o mundo ficará mais triste, vazio.
Toda parte precisa de sua contraparte.
E o meu conforto em ser um solitário por natureza só existe porque alguém, talvez até você, se sinta confortável em ser uma pessoa que prefere muitas companhias do que estar só.
É como se fôssemos parte de um grande quebra cabeças cujas peças possuem apenas dois tipos de encaixe em suas extremidades.
Esse encaixe nas peças que vivem neste planetinha azul chamado Terra é poesia bruta.
E, no final das contas, percebemos que Deus (ou seja lá o nome que sua crença dá ao Criador) é um grande poeta, que faz de nós suas rimas durante as famosas escritas certas sobre linhas tortas.
E gosto disso.
O fato de estar sozinho tem seus benefícios.
Gosto de saber que, entre minhas idas e vindas, fica a incerteza de que eu mesmo serei o responsável por minhas escolhas e as conseqüências destas. Não firo ninguém, não machuco ninguém, não desaponto ninguém.
Durante algum evento ou comemoração em família ou amigos, se me sinto entediado posso simplesmente me levantar, me despedir – ou não – e ir embora. Sem me preocupar se a pessoa que estivesse comigo sentia ainda vontade de ficar e ouvir mais conversas que, para mim poderiam soar chatas e sonolentas, mas para outros poderiam ser interessantes.
Não dá para prever o quão interessante alguém pode achar determinada situação ou assunto. Dá para tentar imaginar, mas prever com exatidão, não.
E é essa imprevisibilidade que me deixa desconfortável.
Quando estou sozinho, sei o que quero. Como quero.
Não existe a imprevisibilidade, pois eu me conheço.
Ser um solitário por natureza traz esse benefício também: o autoconhecimento.
Existe a vantagem também de que, por ser parte de minha essência essa solidão, é muito mais fácil para que eu saia dela, a qualquer momento que eu considere adequado.
Mas não se engane, a solidão não é algo simples de lidar.
É preciso uma certa dose de frieza, desapego. E objetividade.
Sou solitário porque sei o que quero. E quando não vislumbro alternativas para conseguir o que quero, prefiro a familiaridade da solidão do que uma companhia momentânea.
E essa objetividade, simples assim, é um peso que muitas pessoas não conseguem se acostumar.
São as pessoas que sentem a necessidade incontrolável de se sentirem desejadas. Que evitam o território desconhecido da solidão, por medo de não conseguirem mais voltar dessa sombra.
Não entendem que, assim como nem toda luz leva a um paraíso, nem toda sombra é moradia de pesadelos.
Quando entenderem isso, entenderão também que não é preciso temer os momentos de solidão. Que, a partir desse entendimento, fica claro o rumo para sair da sombra, a hora que quiser. Fica nítida a certeza de que esse é um dos caminhos inevitáveis por onde andamos às vezes e, por mais cinza e feio que possa parecer, só trilhando é que se consegue ver a beleza e os tons ao redor.
Pensando bem, se todos entenderem isso, o mundo ficará mais triste, vazio.
Toda parte precisa de sua contraparte.
E o meu conforto em ser um solitário por natureza só existe porque alguém, talvez até você, se sinta confortável em ser uma pessoa que prefere muitas companhias do que estar só.
É como se fôssemos parte de um grande quebra cabeças cujas peças possuem apenas dois tipos de encaixe em suas extremidades.
Esse encaixe nas peças que vivem neste planetinha azul chamado Terra é poesia bruta.
E, no final das contas, percebemos que Deus (ou seja lá o nome que sua crença dá ao Criador) é um grande poeta, que faz de nós suas rimas durante as famosas escritas certas sobre linhas tortas.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Conto inacabado - 1ª parte
A festa estava cheia, música nos últimos volumes, vozes gritando numa tentativa de conversar.
Mas dentro de sua cabeça, pelo salão só havia o som suave de uma sinfonia perdida que era executada por anjos.
Nada era capaz de tirar sua atenção daquele brilho intenso que emanava da pessoa a seu lado.
Tudo era inverso. A energia, palpável. Os toques, etéreos. O tempo, descompassado. A vida cotidiana, distante.
A sensação inegável de prazer enquanto se conheciam parecia mágica.
Mas não acreditava em mágica.
Então o que era?
Não sabia, mas se permitia sentir para, talvez, conseguir descobrir.
E enquanto permitia, se perdia. Se perdia dos pensamentos, das dúvidas, das incertezas, das mentiras, das decepções.
Se perdia dos medos. Das tristezas.
Se sentia bem... sufocantemente bem... angustiantemente bem.
Por alguns segundos, com o olhar perdido em algo que só sua mente sabia, parecia prestes a gritar. Sentia um calor singular pelo corpo, algo que nascia em seu peito e se espalhava rapidamente, irradiando aquela sensação, e canalizava tudo em direção aos seus olhos e parecia prestes a irromper em lágrimas furtivas.
Queria chorar. Queria sorrir. Queria gritar. Queria cantar. Queria expressar tudo aquilo das formas mais primitivas e básicas. Das formas mais naturais e honestas.
Diante daquele turbilhão que acontecia dentro de si, preferiu procurar a outra boca e agradecer com um beijo fulminante e delicado.
E por fim descobriu que havia mágica no mundo.
Mas dentro de sua cabeça, pelo salão só havia o som suave de uma sinfonia perdida que era executada por anjos.
Nada era capaz de tirar sua atenção daquele brilho intenso que emanava da pessoa a seu lado.
Tudo era inverso. A energia, palpável. Os toques, etéreos. O tempo, descompassado. A vida cotidiana, distante.
A sensação inegável de prazer enquanto se conheciam parecia mágica.
Mas não acreditava em mágica.
Então o que era?
Não sabia, mas se permitia sentir para, talvez, conseguir descobrir.
E enquanto permitia, se perdia. Se perdia dos pensamentos, das dúvidas, das incertezas, das mentiras, das decepções.
Se perdia dos medos. Das tristezas.
Se sentia bem... sufocantemente bem... angustiantemente bem.
Por alguns segundos, com o olhar perdido em algo que só sua mente sabia, parecia prestes a gritar. Sentia um calor singular pelo corpo, algo que nascia em seu peito e se espalhava rapidamente, irradiando aquela sensação, e canalizava tudo em direção aos seus olhos e parecia prestes a irromper em lágrimas furtivas.
Queria chorar. Queria sorrir. Queria gritar. Queria cantar. Queria expressar tudo aquilo das formas mais primitivas e básicas. Das formas mais naturais e honestas.
Diante daquele turbilhão que acontecia dentro de si, preferiu procurar a outra boca e agradecer com um beijo fulminante e delicado.
E por fim descobriu que havia mágica no mundo.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Corpo e Alma
Toma meu corpo, é teu.
Mas não minha alma.
Deixa ela comigo ainda, preciso sentir o que é para ser sentido, viver o que é para ser vivido e amar, o que deve ser amado.
Deixa ela solta, preparada para conhecer o mundo inteiro. Outros mundos. O Universo. A próxima.
Deixa que minha alma reconheça outras almas livres, outras almas presas, outras almas perdidas, outras almas solitárias, outras almas felizes, outras almas carentes. Deixa ela ser amistosa, carinhosa, protetora, cuidadosa. Deixa ela ser assustadora.
Deixa minha alma viajar por aí, solta, livre, saqueando amores alheios para depois retomar seu caminho.
Não precisa temer.
Ela brinca, se esconde, vai, mas sempre volta ao lugar de origem.
Meu corpo. Que é teu.
Sempre teu.
Toma minha alma, é tua.
Mas não meu corpo.
Deixa ele comigo ainda, preciso sentir o que é para ser sentido, viver o que é para ser vivido e amar, o que deve ser amado.
Deixa meu corpo se exercitar por aí, com outros corpos, ser conduzido por outras mãos, outras bocas, outras línguas, outros cabelos, outros aromas. Deixa ele ser o condutor.
Deixa que ele fique por cima ou por baixo, ou de lado ou do outro, deixa ele explorar os espaços entre as pessoas, os objetos, os vazios. Deixa ele fazer os movimentos precisos ou errôneos, deixa ele brincar, se reconhecer, deixa meu corpo pintar e bordar.
Deixa meu corpo arfar, sorrir, chorar, gemer, tremer, respirar, correr, pular, suar, lamber, pisar, morder, pegar, bater, parar. Ele nasceu para isso.
Não precisa temer.
Ele finge reconhecer você em outros corpos, vai, mas volta sempre ao lugar de origem.
Minha alma. Que é tua.
Sempre tua.
Mas não minha alma.
Deixa ela comigo ainda, preciso sentir o que é para ser sentido, viver o que é para ser vivido e amar, o que deve ser amado.
Deixa ela solta, preparada para conhecer o mundo inteiro. Outros mundos. O Universo. A próxima.
Deixa que minha alma reconheça outras almas livres, outras almas presas, outras almas perdidas, outras almas solitárias, outras almas felizes, outras almas carentes. Deixa ela ser amistosa, carinhosa, protetora, cuidadosa. Deixa ela ser assustadora.
Deixa minha alma viajar por aí, solta, livre, saqueando amores alheios para depois retomar seu caminho.
Não precisa temer.
Ela brinca, se esconde, vai, mas sempre volta ao lugar de origem.
Meu corpo. Que é teu.
Sempre teu.
Toma minha alma, é tua.
Mas não meu corpo.
Deixa ele comigo ainda, preciso sentir o que é para ser sentido, viver o que é para ser vivido e amar, o que deve ser amado.
Deixa meu corpo se exercitar por aí, com outros corpos, ser conduzido por outras mãos, outras bocas, outras línguas, outros cabelos, outros aromas. Deixa ele ser o condutor.
Deixa que ele fique por cima ou por baixo, ou de lado ou do outro, deixa ele explorar os espaços entre as pessoas, os objetos, os vazios. Deixa ele fazer os movimentos precisos ou errôneos, deixa ele brincar, se reconhecer, deixa meu corpo pintar e bordar.
Deixa meu corpo arfar, sorrir, chorar, gemer, tremer, respirar, correr, pular, suar, lamber, pisar, morder, pegar, bater, parar. Ele nasceu para isso.
Não precisa temer.
Ele finge reconhecer você em outros corpos, vai, mas volta sempre ao lugar de origem.
Minha alma. Que é tua.
Sempre tua.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Sobre a Inveja
Eu invejo o que não tenho.
Mas nem tudo, só o que considero especial.
Único.
Ímpar.
Invejo o talento de escritores como Rubem Fonseca ou Gabriel Garcia Marquez.
Invejo a visão de diretores como Martin Scorsese ou Stanley Kubrick.
Invejo a criatividade de roteiristas como Charlie Kaufmann ou Quentin Tarantino.
Invejo a sensibilidade de atores como Robert de Niro ou Marlon Brando.
Invejo a emoção de cantoras como Elis Regina ou Ella Fitzgerald.
Invejo o bom humor de comediantes como Chico Anysio ou os ingleses do Monthy Pyton.
Invejo a beleza de galãs como Gianechinni ou Brad Pitt.
Invejo a habilidade de empresários como Silvio Santos ou Steve Jobs.
Invejo a sabedoria de mentes iluminadas como Ghandi ou Madre Teresa.
Invejo a poesia de privilegiados como Carlos Drummond de Andrade ou Pablo Neruda.
Invejo a malandragem de Chaplin ou Zeca Pagodinho.
Invejo a musicalidade de Mozart ou Tom Jobim.
Sempre as habilidades, não as pessoas.
Ou ao menos era assim.
Hoje em dia, no entanto, sinto inveja de uma pessoa.
A que tem para si o coração daquela que é a razão do meu afeto.
Como diria a canção: se ela tivesse asas, voaria.
Quem sabe, um dia.
Mas nem tudo, só o que considero especial.
Único.
Ímpar.
Invejo o talento de escritores como Rubem Fonseca ou Gabriel Garcia Marquez.
Invejo a visão de diretores como Martin Scorsese ou Stanley Kubrick.
Invejo a criatividade de roteiristas como Charlie Kaufmann ou Quentin Tarantino.
Invejo a sensibilidade de atores como Robert de Niro ou Marlon Brando.
Invejo a emoção de cantoras como Elis Regina ou Ella Fitzgerald.
Invejo o bom humor de comediantes como Chico Anysio ou os ingleses do Monthy Pyton.
Invejo a beleza de galãs como Gianechinni ou Brad Pitt.
Invejo a habilidade de empresários como Silvio Santos ou Steve Jobs.
Invejo a sabedoria de mentes iluminadas como Ghandi ou Madre Teresa.
Invejo a poesia de privilegiados como Carlos Drummond de Andrade ou Pablo Neruda.
Invejo a malandragem de Chaplin ou Zeca Pagodinho.
Invejo a musicalidade de Mozart ou Tom Jobim.
Sempre as habilidades, não as pessoas.
Ou ao menos era assim.
Hoje em dia, no entanto, sinto inveja de uma pessoa.
A que tem para si o coração daquela que é a razão do meu afeto.
Como diria a canção: se ela tivesse asas, voaria.
Quem sabe, um dia.
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