terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Memórias

Quando ela sorria, o mundo parecia melhor.

Não pela beleza geométrica de seus dentes - até porque eles não eram talhados em formas retas e precisas, como aqueles sorrisos de modelos em propaganda de pasta de dente - mas, simplesmente, porque seu sorriso exalava a bondade enorme que ela possuía dentro de si.

E quanta bondade cabia dentro daquela pessoa!

Não que ela fosse alheia à maldade dos outros, pelo contrário, ela parecia ter um radarzinho na cabeça que apitava tão forte quando conhecia alguém "de má índole", como ela dizia. E não é que o radar funcionava mesmo? Quando cismava com alguém, ela não errava.

Mas mesmo assim ela acreditava nas pessoas.

Era capaz de enxergar as boas intenções mesmo quando alguém a tirava do sério. O que não era fácil de acontecer mas, quando acontecia, sai de baixo!

Ela era impulsiva.

Seu rosto realçava a firmeza em seus traços normalmente sérios enquanto ela se enfurecia de tal forma que seria fácil pensar que ela nunca nos perdoaria. Mas, se prestássemos atenção no fundo de seus olhos, veríamos que, mesmo nesses ímpetos de fúria, estava lá ainda, nas pupilas, aquela bondade enorme.

Talvez ela só conseguisse esconder essa bondade quando percebia que alguém estava mentindo. Ela não tolerava mentiras, sob nenhum aspecto. Dizia que mentiras são desnecessárias quando existe o respeito entre as pessoas.

Ela era muito inteligente mas se recusava a aceitar que, em alguns momentos, uma mentira é mais benevolente e necessária que uma verdade.

Ela era ingênua. Ou pura demais, sua mente não havia sido corrompida pelo cinismo e crueldade da sociedade.

Mas era muito boa.

Era impraticável não se deixar envolver por seu carinho, por sua asa protetora e amável.

Era praticamente improvável não se importar com ela.

Era definitivamente impossível não sentir falta de seu abraço, de seu toque acalentador e de suas palavras confortantes como um cobertor quentinho numa noite de inverno.

Ela era culta, discreta, insegura, observadora, tímida até. Mas nós sabíamos como ela era com as pessoas em que confiava... ela revelava seu humor refinado, por vezes irônico e ácido, mas sempre com boas intenções. Ela era a definição de uma boa intenção.

Parecia que Deus a criou para isso, para mostrar a nós, mortais desiludidos, que havia ao menos uma alma de boa intenção no mundo. Era uma amostra de fé na bondade humana.

Não, claro que ela não era perfeita.

Mas era inegável sua prestatividade, estava sempre presente quando alguém precisava de um favor, mesmo que fosse apenas conversar.

Hoje me sinto envergonhado ao imaginar quantas vezes ela devia se sentir sozinha, isolada, quando nenhum de nós se preocupava em ao menos telefonar para saber sobre ela, ou simplesmente perguntar "você está bem?". Sinto que fomos ingratos.

Claro que, por muitas vezes, ela fazia questão de frisar essa preferência por se manter afastada, em sua discrição, não interagindo conosco com mais frequência. Aliás, que eu me lembre, raramente alguém foi convidado a ir em sua casa. Certa vez ela me disso que não convidava as pessoas porque não era uma boa anfitriã. Talvez ela achasse o seu auto-isolamento ocasional algum tipo excêntrico de charme. Eu prefiro acreditar que ela apenas gostava e precisava de um tempo pra si mesma, às vezes. Só ela e seus pensamentos.

E ela fervilhava pensamentos. Idéias dos mais variados tipos, comuns, geniais, infames, ousadas, bobas, fantásticas. Nisso ela não era muito diferente de mim ou de você. Em fervilhar pensamentos.

O que a diferenciava era a fé que ela tinha em quase todos aqueles pensamentos, aquelas suas idéias. Ela era capaz de criar uma história mirabolante em sua cabeça, a partir dos motivos mais banais e cotidianos.

Me dava a sensação que sua imaginação era um cavalo selvagem que corria pelo mundo, incansável, indomável e solitário.

Ela, vez em quando, passava esses arroubos de imaginação pro papel. Era sonhadora. Era ingênua. Era feliz assim.

Gosto de pensar que ela era feliz. Pois ela merecia ser feliz.

Às vezes penso nela, com um peso crescente que vai do meu peito para minha garganta. Com uma certa angústia e arrependimento porque, quando ainda podia estar ao lado dela, não aproveitei as oportunidades para dizer como ela me fazia bem, como era um privilégio sublime sentir um pouco daquela aura especial que ela exalava.

Hoje é só saudade que me acompanha, quando penso nela.

Aquela saudade fria, aguda, que traz um cheiro de terra molhada até o nariz e um saudosismo doce de um tempo que poderia ser eterno. Uma saudade de chuva.

Ela disse que vem pra cá no fim do ano. Eu acredito e tento controlar a ansiedade para sentir novamente aquela paz viciiante que seu abraço traz.

Mas o fim do ano está longe, tanta coisa pode acontecer antes... E o tempo passa devagar pra quem deseja muito.

Por isso, hoje, espero simplesmente que ela esteja bem... e que esteja pensando em mim tanto quanto eu penso nela e naquele sorriso cheio de bondade.