quarta-feira, 5 de março de 2008

faltante

falta um tanto
falta um pranto
falta o encanto de te ver

falta a foto
falta um fato
falta um feito por você

falta isso
falta aquilo
falta a fita do laço

falta agora
falta a hora
falta a história e o compasso

falta tanto em mim que parte de ti
falta assim, distante, aqui
falta um pouco de paz ao seu lado
falta o uivo rouco de um lobo cansado

desfaça essa falta que envolta meu viver
revolta esse afeto que fugiu do meu querer
revolve e revele esse fogo fátuo fugidio
faltante no retrato do nosso brinde frio

Olhar

as coisas que teu olhar me diz, mesmo sem falar
me fazem lembrar de um tempo que nunca vivi
um tempo que, a qualquer momento, pode chegar
um tempo que, mesmo distante, está presente aqui.

as coisas que teu olhar me diz...
coisas de paz, de amar, de sonho, de céu, de mar.
me diz, teu olhar, as coisas que eu sempre quis!
de mais a mais, quero mais que seu olhar.

terça-feira, 4 de março de 2008

CONTO - A última hora

Era pouco mais de meia-noite quando senti uma necessidade irrefreável de dizer adeus àquelas pessoas na festa.
Durante muito tempo em minha vida eu não senti vontade de ter tanta gente assim à minha volta e agora, às vésperas de partir, me surpreendi ao ser consumido por uma sensação de saudosismo destes amigos, e até mesmo dos que eu não considerava amigos, antes mesmo de deixá-los.
Se é verdade o que dizem, que só aprendemos a dar valor às coisas e às pessoas depois que as perdemos, então eu me tornara uma exceção naquele instante.
Senti saudades e quase me arrependi da minha decisão de ir embora.
Mas claro que isso não me fez mudar de idéia e, para afastar esses pensamentos, subi em cima da mesa da sala e pedi a atenção de todos, pois queria dizer algumas coisas.
A maioria, sob o efeito do álcool, assoviou e bateu palmas enquanto eu aguardava, simulando constrangimento, até que finalmente silenciaram.
Primeiramente – disse eu – agradeço a todos vocês. Acho que ninguém aqui tem idéia do quanto isso é importante para mim, ter a presença de tantos amigos e colegas nesta despedida. Muito obrigado mesmo. Principalmente aos que me ajudaram na organização disso tudo... Jonas, Eduardo e Mariana, também Sílvia e Patrícia. Obrigado por tornarem esse momento inesquecível pra mim. Talvez a maioria de vocês não entenda os motivos que me fizeram decidir ir embora, mas entenderão mais cedo do que imaginam. Só saibam que, independente do rumo que cada um aqui seguir, eu sempre serei grato a todos vocês por terem feito parte de minha vida aqui nesta cidade que aprendi a amar. Agora, antes que eu comece a chorar, quero finalizar dizendo que se eu não consegui realizar alguns de meus sonhos aqui, pelo menos posso partir com a certeza de que tive ótimas companhias na maior parte do tempo. Gosto de todos vocês. Agora, tenho que mijar.
Novos aplausos enquanto desci da mesa. Algumas pessoas riam da minha frase final, outras mais emotivas disfarçavam as lágrimas.
Recebi uns cumprimentos e abraços no caminho até o banheiro e, ao entrar e fechar a porta, encostei na parede respirando profundamente e me sentindo aliviado, como se tivesse tirado um peso das costas.
Então, foi como se tudo aquilo que aconteceu segundos atrás tivesse simplesmente desaparecido.
Apesar do volume da música e das vozes que, mesmo abafadas pela porta do banheiro, continuavam altas, pela primeira vez naquela semana eu havia finalmente encontrado alguns segundos de alívio.
E após o alívio, senti medo, como há muito tempo não sentia.
Chegara a hora de partir.
Tirei minha carteira e meu relógio, colocando sobre a tampa da privada.
Abri a carteira e retirei um bilhete que já havia escrito antes. Não reli, para não permitir a chegada de qualquer tipo de arrependimento.
Deixei o bilhete debaixo do relógio.
Me olhei no espelho e percebi o cansaço em meu rosto e, no fundo dos meus olhos, a triste confirmação de que partir era a melhor decisão a tomar.
Lembrei de meus pais. Meus irmãos. Eles estariam me esperando.
Não senti vontade de chorar, apesar de achar que seria apropriado para a ocasião. Simplesmente não consegui.
Então, abri a torneira e molhei meu rosto, olhando no espelho o efeito das falsas lágrimas.
Pensei na ironia disso, minha vida inteira foi cercada por emoções vazias e tristes, e nada mais apropriado que eu fingir um choro para mim mesmo, apenas como um escape para que eu me sentisse mais aliviado naquela despedida particular.
Aliviado por demonstrar no falso choro a falta que meus pais e meus irmãos faziam pra mim, desde que se foram.
Ninguém na festa, nem mesmo meus amigos de verdade, perceberam a coincidência da data. Agora, quase uma da manhã, fazem exatamente três anos.
Suspirei, enquanto olhava meu rosto molhado.
Balbuciei uma frase sem sentido, de um filme que eu gostava muito.
Pela última vez senti vontade de fazer aquilo na frente de todos, como uma cena de impacto na vida, pra variar. Mas preferi enfrentar sozinho, até porque provavelmente eu não teria coragem de fazer na frente dos outros.
Tirei do meu bolso a faca e cortei meus pulsos, e depois meu pescoço.
Antes de morrer, ouvi alguém batendo na porta.
O barulho me fez lembrar de quando eu me trancava no banheiro com revistas de mulher pelada e minha mãe ou meus irmãos ficavam batendo na porta, insistindo pra eu sair rápido do meu suposto banho.
Meu último gesto foi esboçar um sorriso, pela lembrança.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Fios Brancos

Hoje olhando no espelho descobri
os fios brancos que começam a se espalhar
Lembranças disfarçadas no couro cabeludo esvaindo em minha cabeça lentamente

Fugitivos da memória
escondidos em filamentos capilares
esperando o corte do metal para escapar flutuando até o chão de algum salão

Em cada um dos fios brancos vi uma história
Sobre à orelha esquerda estava eu entre deveres escolares
na mesa da cozinha enquanto minha mãe contava o tempo para assar um pão

Acima do olho esquerdo percebi
na entrada que prevê a futura calvície que vou herdar
meu pai preparando o churrasco num fim de semana bem quente

Pensei sobre o que me fazia associar os fios brancos com tudo isso.

Virando para direita estavam elas
pouco acima do pescoço
minhas irmãs dormindo ainda crianças em suas camas no quarto vizinho ao meu

Momentos de alegria
em cada fio que surgiu devagar,
ano a ano, tingindo de branco o meu tom castanho-escuro.

Meus tios e tias,
primos e avós em algum lugar,
também os amigos das fases distintas que eu sentiria falta no futuro.

Depois de ver cenas tão belas
decidi não fazer alvoroço
aceitei o passado fragmentado em cada fio branco que em mim nasceu.

Então joguei a loção de tingir o cabelo no lixo.